O ceviche é uma história peruana

A comida de um lugar é sempre uma guardiã da história que aconteceu ali. A composição do ceviche é uma história peruana: O peixe é o oceano pacífico que sempre esteve ali, com povos antigos que moravam na sua beira e cozinhavam peixe no ácido de uma fruta. Mas o peixe do ceviche também conta dos japoneses que nem sempre estiveram ali, mas que um dia chegaram. A diversidade de batatas e o milho são a sabedoria dos Incas e dos povos ancestrais andinos sobre a natureza – eles que já estiveram ali, e quase foram aniquilados. Quase. Engraçado pensar na batata e no milho dos Andes como uma memória resistente – assim como o quéchua ainda é falado, assim como as cholas, mulheres guardiãs da cultura andina, seguem com seus tecidos, tranças e cores perpetuando uma marca atemporal naquele território, até hoje. Já o coentro e os cítricos vieram com os espanhóis – e isso tudo junto é a América Latina: camadas complexas de partidas, chegadas, destruição, resistências e criação.

Um prato de comida às vezes é um portal que ajuda a gente a acessar tanta coisa sobre um território – e a comida é um dos meus portais favoritos. Mas tem tantos outros. Também como um povo dança e que tipo de som e movimento essa dança produz. Também uma simples parede numa rua às vezes conta tanta coisa (em duas das fotos, construções em Cusco onde a base é feita de pedra Inca, e por cima, na mesma parede, uma estrutura já colonial espanhola que parece tentar se sobrepor a pedra Inca – mas ela, a pedra, segue ali, resistente, ligada à terra original. Tudo ali, revelando camadas do que significa ser latino).

E o Peru é um lugar mágico pra ser acessado, de muitas maneiras. Sempre que vejo vídeos das danças festivas que vi em Cusco tenho vontade de ir pra lá, só pra dançar um pouco por algum motivo bonito. Mas nesse dia só fiz o ceviche mesmo, cozinhando uma memória – que é uma outra forma de dança interna, pra mim.

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